CENTRAL DE ATENDIMENTO
(21) 3385 - 2000

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Bernadete Carvalho

Bernadete Carvalho foto

Eu acreditei e consegui.

A minha história começa em 1995, quando eu descobri um nódulo benigno na mama direita. Eu tinha 32 anos, recém-casada, sem filho.

Fiz a cirurgia e realmente foi constatado que o nódulo não era maligno. No entanto, formou-se uma fibrose na cicatrização interna. Sempre com acompanhamento, os médicos me diziam que não havia risco.No final de 1998, eu engravidei do meu único filho. Foi a realização de um sonho.

Foi uma gravidez muito tranquila, sem enjoos e sem ganho relevante de peso. Em julho de 1999, o meu filho nasceu saudável e trouxe muita alegria para toda a família. Amamentei por oito meses e tinha bastante leite.

No começo do verão de 2001, fiquei inquieta. Após a amamentação, os meus seios diminuíram muito, e a cicatriz daquela cirurgia de 1995 ficou funda, com uma fibrose sobressaltada. Então, resolvi procurar um mastologista para estudar a possibilidade de colocar uma prótese de silicone e tornar a ter mamas belas, como eram antes.

Em meio aos exames, percebi uma reação adversa quando realizei a mamografia. Recomendaram-me que voltasse ao médico ainda naquela tarde, que prontamente me recebeu e agendou imediatamente uma patologia de congelação para verificar in loco se a fibrose era mesmo benigna. Eu tinha acabado de completar 36 anos, e o meu filho, um ano e meio.

Fui para o centro cirúrgico certa de que o tumor era benigno e que eu sairia de lá com as próteses de silicone e lindíssimos seios. De tarde, quando acordei da anestesia, o médico entrou no quarto dizendo: “Se você fosse um carro, teria ferrugem, mas, como você é um ser vivo, teve um câncer” […] “tinha um câncer horroroso na tua mama, e eu decidi tirar tudo” […] “foi uma mastectomia radical com esvaziamento axilar”. O mundo parou pra mim. Lembro-me integralmente do terror desse momento… parecia que o chão e o futuro tinham desaparecido para sempre de uma única vez.

Era carnaval, a cidade completamente agitada pela folia dos blocos. Um verão insuportável. E eu mutilada! Eu não conseguia mais acreditar que veria o meu filho crescer, fazer quinze anos. Tantos sonhos simplesmente aniquilados por uma notícia…

A cirurgia não cicatrizava. Conseguia ver o interior do meu corpo pelo “buraco” que tinha no peito. Perdi toda a mama direita. A parte mais bonita do meu corpo fora arrancada, sem aviso, sem autorização prévia. Tive muita raiva do mundo, do médico. Não compreendia o porquê, mas tinha de seguir adiante. O meu filho estava ali do meu lado. Eu precisava continuar.

Três meses depois da cirurgia, decidi misturar açúcar com a pomada e, finalmente, o buraco fechou. Fui encaminhada ao Dr. Mauro Zukin, do COI. Tudo parecia estranho. O médico, hoje um grande amigo, disse-me todo o protocolo que eu deveria seguir. Falou da quimioterapia, da radioterapia, da hormonioterapia, enfim, de todas as terapias necessárias para ter certeza de que a doença não voltaria. Tive muito medo. Não conseguia imaginar o que aconteceria dentro daquela sala de quimioterapia. Fantasiava “monstros” me esperando.

Enfim, chegou o dia da primeira seção de quimio. Uma bolsa vermelha e outra branca. Eu logo apelidei a vermelha de Campari. Eu tinha a mesma cor. Mandaram-me deitar numa cama apartada dos demais pacientes, espetaram-me soro no braço esquerdo. Começou a correr a quimioterapia. Descobri o que era uma quimioterapia. Não tinham monstros; pelo contrário, encontrei uma equipe de enfermeiros que mais pareciam anjos. Cuidaram de mim com muito profissionalismo, mas também com muito carinho e atenção. Tudo o que eu precisava naquele momento.

Foram oito ciclos pesados. Passei muito mal. Tive muita reação à quimioterapia. Meu paladar era totalmente metálico, ácido. Eu dizia que tudo o que eu comia tinha gosto de suco de limalha de aço. Um pesadelo. Descobri que tinha o vírus do herpes-zóster. E descobri da pior forma. Tinha feridas desde a mucosa da boca até o final do intestino, passando por todo o trato digestivo. Doía até para respirar. A minha alimentação estava reduzida a três visitas diárias ao hospital para tomar soro.

Eu trabalhei todo o tempo. Não parei ou fiquei em casa esperando a dor passar. Acordava todas as manhãs, colocava a minha peruca e ia para o escritório. Aliás, a peruca, inicialmente abaixo dos ombros, terminou bem curtinha e batidinha. Trocava de visual sempre. Foi muito importante manter a minha rotina: filho, família, amigos, trabalho e estudos. Resolvi que, assim como entrou, a doença sairia, pois ela não me pertencia.

Foi difícil, mas, com a ajuda dos profissionais, da família e dos amigos, tudo ficou mais fácil. Não tinha tempo para ficar lamentando e com autopiedade. Procurei terapia individual e de grupo e uma nutricionista. Fazia shiatsu, mocha e auriculoterapia. Usei Florais de Minas. Passeava, brincava e tentava levar uma vida normal.

Ao final de oito meses de quimioterapia pesada, comecei a radioterapia diária. Mais um pesadelo. Como será esse negócio? O que vai acontecer? Vou ficar radioativa? Outra vez, encontrei uma equipe maravilhosa. Apesar de tudo, divertia-me muito com o técnico da radiologia. Tive de manter os desenhos no peito por mais de 30 dias, sem molhar, para não perder a marcação. A radioterapia foi muito tranquila. Não tive nenhuma reação.

O meu cabelo e os pelos voltaram a crescer. Inicialmente finos, ralos e brancos como os de um bebê. Tirei a peruca e fiquei com a cabeça rapada com máquina dois. “Radical e elegante”, diziam. Passei a curtir o novo visual. Pintei os cabelos, as unhas começaram a crescer junto com as sobrancelhas e os pelos do corpo. Começava a restabelecer o padrão físico do meu corpo. Mas ainda não era indicado iniciar a reconstrução da mama. Mais paciência. Mais enchimento no sutiã …

Chegou, enfim, mais um ano novo. Só que, dessa vez, tinha as probabilidades contra mim. Havia, estatisticamente falando, a probabilidade de 83% de eu voltar a ter outro câncer até o final do primeiro ano. Oras bolas, pensei, mas há 17% de probabilidade para que eu NÃO tenha mais nada. Alguém tem de preencher esse espaço. Então serei eu!

Com essa decisão tomada, iniciei a hormonioterapia. Estava com 38 anos, um filho de dois anos e meio e em menopausa artificial por mais cinco anos. O que fazer? Vamos que vamos.

Fiz a primeira etapa da reconstrução mamária durante a Páscoa de 2002. Uma cirurgia muito grande. Tive de engordar muito para ter material para a reconstrução. Foi realizada uma cirurgia que me devolveu uma mama quase perfeita. Começou com uma abdomoplastia, com a retirada de pele e gordura do baixo-ventre e com o corte do reto abdominal esquerdo. Tudo foi recolocado sobre a área da mama direita. Tinha de esperar meses para que os tecidos de acomodassem e cicatrizassem para dar continuidade à reconstrução.

No meio do tratamento, em 2002, fiquei desempregada. O mundo havia parado em razão do ataque do 11 de setembro, nos Estados Unidos. A empresa em que eu trabalhava acabou perdendo os contratos por conta da crise americana. Fiquei sem plano de saúde. Busquei tratamento público no Inca, que não me aceitou, pois eu já fazia tratamento em uma clínica particular. Achei que corria o risco de morrer na praia, literalmente. Mas a Providência Divina colocou mais um anjo no meu caminho. Consegui ser atendida no Hospital da Lagoa por um dos médicos da equipe do COI. Continuei com o mesmo protocolo de tratamento. Fiz concurso público para duas empresas públicas federais. Passei nas duas, mas não fui chamada de imediato.

Felizmente, em 2003, fui convocada pelas duas empresas. Saí do ostracismo que destrói nossa mente, já que deixa tempo para pensamentos inoportunos e perigosos. Retomei o meu trabalho. Voltei a ter plano de saúde e tive garantida a possibilidade da continuação do processo de reconstrução mamária. Processo sim, porque foram três grandes cirurgias. Iniciei a segunda etapa para a reconstrução do mamilo, com tecido da virilha e metade do mamilo da mama esquerda. Mais um período de recuperação e cicatrização.

Meses depois, precisei fazer mais uma cirurgia. Dessa vez, tive de colocar o silicone para equilibrar o tamanho da mama direita. Ironicamente, tudo começou porque eu queria colocar silicone no peito. Ei-lo aí! Não foi da forma que eu sonhara, mas ficou maravilhoso.

Fiz o Nolvadex por cinco anos. Depois mais Arimidex. Até que o meu organismo reagiu, e a menstruação voltou. Suspendemos tudo. Eu estava de novo normalíssima.

Três anos mais tarde, para minha surpresa, mas não para a do meu querido oncologista, a menopausa veio de vez. Sem sintomas, sem traumas. Apenas parei de menstruar.

Ontem, 25 de janeiro, fez 14 anos desde o resultado da mamografia. O meu filho completou 15 anos em julho. Está lindo. Completei 50 anos em outubro e fiz uma linda festa para comemorar esta vida maravilhosa. Os meus sonhos voltaram. Trabalho, viajo, vivo intensamente a alegria de ter tido uma segunda chance de viver. Estou tentando fazer diferente, melhor, para que não adoeça de novo.

Para comemorar, ontem subi a pedra dos Dois Irmãos e agradeci a Deus pela oportunidade de estar aqui, saudável, alegre e feliz, vivenciando este mundo tão maravilhoso.

Eu acreditei e consegui fazer parte do grupo de 17% de pacientes que não teriam recorrências até o final do primeiro ano. Eu venci a luta!

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