CENTRAL DE ATENDIMENTO
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Karina Colpaert

HDS Karina Colpaert

Sempre fui otimista, e o engraçado é que fui muitas vezes chamada de “Pollyanna”. Mas o fato é que sou mais feliz sendo otimista do que o contrário. Acredito que, na vida, você sempre poderá ver o copo meio cheio ou o copo meio vazio; é uma questão de escolha. E foi assim que encarei o diagnóstico de câncer de mama. O copo está meio cheio e tem muita água para beber. Estou sedenta por viver uma vida feliz com meus filhos, com meu marido, com minha família, com amigos e com muita gente que ainda vou conhecer.

E foi pelos meus filhos que tratei da doença de forma leve, porém verdadeira. Desde o início, eles souberam que a mamãe tinha uma “bolinha má no peito” e que teria de retirá-la. Meus filhos, um com cinco, e o outro com três anos, cada um do seu jeito, com características adoravelmente diferentes, encararam o tratamento junto comigo. Decidi ser honesta com eles, porque chegou a hora de eles enxergarem o copo meio cheio. A vida é feita de surpresas, e muitas delas deverão ser superadas; e os dois pequenos samurais já são capazes de enfrentar seus medos para conquistar as suas vitórias.

Lembro que recebi a confirmação do diagnóstico no final do dia; estava em casa sozinha (coisa raríssima), e o médico me ligou. Enquanto ele me explicava, a porta se abriu, e as crianças chegaram…foi escutar o barulho da chave na porta e comecei a chorar. Nesse momento, não chorei pelo diagnóstico, mas sim pelos meus filhos. Ao final da ligação, chorei tanto que meu filho mais velho achou que eu estivesse rindo; já o mais novo, que é mais sensível, se aproximou e depois, sem saber o que fazer, foi para o colo da babá. Achei que deveria falar algo e disse simplesmente que a mamãe estava triste. Foi o suficiente; eles respeitaram minha tristeza.

Mas como o copo está meio cheio, não cabe tristeza. Chegou o dia da cirurgia, 17/7/2014; fui para o hospital tirar a “bolinha má do peito”. Após quatro noites no hospital, voltei para a casa, e, já chegando, as crianças estavam na janela me esperando. Nossa! Que alegria! Ao abrir a porta, os abraços e os beijos foram nas pernas. Meu marido já havia explicado…tão doces, tão educados!

Passados 40 dias da cirurgia, a confirmação da necessidade de fazer quimio chegou junto com a viagem para a Disney. Sim, no meio do tratamento, a família foi para a Disney. Fomos todos, inclusive tios e avós maternos e paternos. Foram 12 dias de viagem, e a realidade do copo meio cheio apareceu apenas na hora de comprar as perucas. Copo meio cheio? Sim, perucas no Brasil são caríssimas. Eu comprei seis perucas pelo preço de uma no Brasil!!!! E foi na Disney que eles souberam que a mamãe ia ficar careca e tinha de comprar perucas. Já no hotel, com as seis perucas, foi uma festa. Enquanto um filho experimentou todas as perucas, o outro preferiu brincar com os lenços. Foi uma farra, rimos muito. E, mais uma vez, bastava um copo meio cheio para matar nossa sede de viver.

O mundo mágico da fantasia acabou, e voltei direto para a dura realidade. Iniciei a quimio, e os primeiros efeitos colaterais foram difíceis. Dessa vez, não tinha força nem para explicar que a mamãe estava passando mal…mas o filho mais novo vinha, de tempos em tempos, e me perguntava: “- Mamãe, tá feliz? Mamãe, te amo”.

Na manhã do 15º pós-quimio, os cabelos começaram a cair – mais um momento muito difícil, e assim decidi raspar a cabeça. Antes disso, expliquei para as crianças que, quando eles voltassem da escola, a mamãe estaria careca e disse que o cabelo estava caindo. O filho mais velho pediu para ver; puxei o cabelo, e um tufo saiu em minha mão. Ele riu. Riu muito e quis também puxá-los…eu deixei…e em gargalhadas ele puxou alguns tufinhos. Eu disse a ele que já estava bom, pois a mamãe estava triste por perder os cabelos. Ele entendeu e imediatamente parou de rir e me abraçou.

Foram dois ou três dias para as crianças se adaptarem com a mamãe careca; enquanto um prefere a mamãe de peruca, o outro prefere o lenço com chapéu. E cada um, com seu gosto, com sua característica, com sua personalidade…mas com uma coisa em comum…com o otimismo de perceber que o copo está meio cheio.

E foi assim que optei por passar por isso de forma otimista. Momentos muito difíceis foram vividos; podemos ficar tristes, mas não podemos ser tristes. Tudo nesta vida é uma questão de escolha; e, se é uma questão de escolha, não dá para ter tudo. O tudo é muito, e eu só preciso do suficiente, por isso obrigada pelo copo meio cheio.

Aos meus filhos amados, ofereço um copo de água meio cheio; vamos dar um gole e seguir em frente, a caminho da felicidade. Façam suas escolhas e sejam felizes!

E, hoje, como estou? Passadas a cirurgia e as sessões de quimio, chegou a hora de encher o copo de outras pessoas com solidariedade. As perucas e os lenços foram doados, e a minha história eu compartilho com vocês. Um brinde à saúde e à felicidade.

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