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Carlos Silva

HDS Paciente 2

Em 2008, fui diagnosticado com câncer osteossarcoma, tumor maligno dos ossos.

Em 2010, o câncer tinha voltado no mesmo lugar, e o médico optou por tirar minha perna. Ele disse: “Você tem duas escolhas – a perna ou a vida”. Na hora, fiquei triste, pensando como ia ser minha vida dali pra frente. E me perguntei: Será que vou ter uma vida normal e arrumar namorada, me casar, ter uma família e ser feliz desse jeito amputado e com câncer? Tive que assinar o termo de responsabilidade para que a minha perna esquerda fosse amputada.

Em 2012, fui diagnosticado com metástase nos dois pulmões; nesse meio tempo, minha vida era um pesadelo. No meu pensamento, só vinha isto: o fim está próximo para mim, vou morrer, não tem mais jeito; o câncer no pulmão está grande, 10 cm de um lado, 11 cm de outro lado. Muito triste, não queria comer nada e pensava: pra quer comer? Ficar gastando dinheiro com comida comigo, que não tem mais jeito.

Nesse tempo, comecei a fazer parte de uma rede social para me distrair um pouco. Foi aí, então, que conheci a Laudiceia de São Paulo, Grajaú. Falei sobre meus problemas pra ela, e ela sobre os dela pra mim. Todos os dias, naquela hora, eu entrava na rede social para conversar com ela, pois eu já estava gostando dela, mas ela não sabia disso. Nesse tempo, minha mãe conversava com minha irmã que mora em Guarulhos a meu respeito. “Ele tá triste, vamos comprar uma passagem pra ele ir pra sua casa, aí em Guarulhos; só assim, ele se distrai um pouco”. Minha irmã concordou com minha mãe, comprou a passagem. Foi uma surpresa pra mim. Pensei: é a chance de conhecer a Laudiceia de perto.

Comentei com a Laudiceia que eu iria para São Paulo; ela também ficou superfeliz, pulando de alegria; eu fiquei animado, pois eu ia conhecer a pessoa de que gosto. “Estou ficando apaixonado”. Esse dia chegou, conheci-a pessoalmente, dei um abraço bem forte nela, conversamos, nós sentimos que gostávamos um do outro. Na hora, fiquei com medo de pedi-la em namoro; fui ficando vermelho, tímido.

Os dias se passaram até que tive coragem e pedi-la em namoro. Para minha surpresa, ela aceitou, mesmo sabendo que eu tinha câncer. Ela falou: “O que importa é o amor, é a gente se amar, e isso eu tenho por você! Eu te amo!”. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas de felicidade, pois me senti a pessoa mais feliz do mundo. Passei um mês em Guarulhos, voltei para o Pernambuco; ficamos namorando pela internet e pelo telefone.

Fui ao médico, e ele falou que a cirurgia no pulmão seria muito arriscada: “Corre o risco de morte, pode dar hemorragia e outras complicações cirúrgicas. Cheguei em casa, peguei o celular e liguei pra ela. Falei que a cirurgia seria arriscada, e ela ficou muito triste. Não pensou duas vezes: largou a família e o trabalho e veio para o Pernambuco. Assim que ela me falou que estava vindo pra cá, fiquei animado; o coração acelerado de paixão e amor. Cheguei a vê-la pessoalmente, antes de fazer a cirurgia, a abracei, e falei: eu vou, mas eu volto, tá, amor. Ainda quero realizar meu sonho. Ela perguntou: “Qual é o seu sonho, amor?”. Eu respondi: me casar com você! Os olhos dela ficaram cheios de lágrimas. Foi muito emocionante, fui mais confiante, pensamento positivo, pedia em oração a Deus: Oh! Deus, me cure para poder me casar com ela; é o meu sonho. Oh! Deus, se o Senhor a trouxe até aqui, creio que o Senhor não vai deixar minha namorada sozinha. Oh! Deus, ela precisa de mim, e eu dela; nós nos amamos. Creio que vai dar tudo certo na minha vida!

Fiz a primeira cirurgia, ocorreu tudo bem, graças a Deus. Consegui realizar meu sonho: me casei com ela no civil, na cidade onde moro. Antes de fazer a outra cirurgia do outro pulmão, nos casamos na capela do hospital onde faço tratamento, com a ajuda das voluntárias. Sou grato a Deus, por ter trilhado meu caminho com pessoas maravilhosas. O casamento foi lindo. Ao entrar, os olhos dela brilhavam como uma estrela cadente; foi inesquecível. Isso foi numa sexta feira; na segunda, tivemos que retornar ao hospital pra fazer a cirurgia. Mas tive uma surpresa: o carro da prefeitura demorou muito, e o resultado foi que acabei perdendo a cirurgia. O médico remarcou para o fim do mês, e o câncer não parava de crescer. Minha preocupação só aumentava. Era minha vida que estava em jogo.

Um dia antes da cirurgia, já estava no hospital para não correr o risco como da primeira vez. Consegui fazer a última cirurgia no pulmão, e fui para a UTI. Lembro minha esposa entrando na UTI para me ver, com uma bata branca. Fiquei muito emocionado. Naquela hora, passou um filme na minha cabeça, pois não é toda pessoa que deixa seu trabalho, principalmente sua família, para vir cuidar de uma pessoa, em outro Estado.

O amor supera barreiras, obstáculos. Para o amor, não existe distância. Mais uma vez, o amor venceu, e venceu o câncer. Tive que passar por várias sessões de quimioterapia, que fazem parte do tratamento. Mas, dessa vez, fiquei internado com minha esposa; algumas vezes, eu passava cinco dias internado: outras vezes, passava sete, sempre acompanhado. Laudiceia dormindo em uma cadeira de plástico com a cabeça na cama, onde eu tava deitado. Eu, sem poder fazer nada, ficava muito triste, magoado, vendo minha esposa dormindo em uma cadeira de plástico.

Mas eu tinha em mente que era para o meu bem, para não pegar infecção e ter uma recuperação mais rápida e era o que eu queria: sair dali o mais rápido possível. Teve um momento, cuja cena nunca esqueço: em um dia em que acordei de manhã com uma coceira na veia onde estava o soro; olhei de lado para a cama; na hora não queria acreditar no que estava vendo: a cama cheia de sangue. Olhei para o braço onde estava o soro; ele tinha saído da veia, e continuava sangrando. Eu já estava pálido. Minha esposa começou a chorar, chamou a enfermeira, e a enfermeira, demorando muito, não estava nem aí, não se preocupava com a minha situação. Depois de algum tempo, ela veio tirar o gel e colocar o algodão para estancar o sangue.

Mas o amor foi mais forte e venceu todas as barreiras.

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