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Flavia Ruggeri

HDS Flavia Ruggeri

Sobrevivi para contar

No dia 28 de agosto de 2012, recebi a pior notícia da minha vida: estava com câncer, mais especificamente, um linfoma não Hodgkin no mediastino.

Parecia que estava recebendo um soco absurdamente forte na barriga. E, em poucos segundos, me vi afrontada por uma sentença de morte e só conseguia pensar na minha bebê de nove meses e na minha mãe, sendo eu, sua única filha.

Durante um curto espaço de tempo, não conseguia realizar um futuro próximo; parecia que tudo ia acabar ali mesmo.

Depois desse surto temporário e justificado, fui encaminhada à equipe do COI, liderada pela Dra. Anouchka, que, ao me conhecer, me disse a seguinte frase, a qual nunca esqueci: “De onde você está agora, só ladeira acima”.

E, assim, caminhamos.

Não digo que foi fácil e que não é esse monstro que todos desenham. Muito pelo contrário; foi muito doloroso. A sensação que tinha é que estava no mar, tentando sair, e as ondas, ao invés de diminuírem, aumentavam cada vez mais, e eu mergulhava, mergulhava, mergulhava, sempre tentando pegar uma onda verdadeiramente forte para que ela me tirasse dali e me levasse de volta à areia, ao menos, um pouco sã e praticamente salva.

No início, a maior dor foi não poder segurar minha filha no colo. Era preciso um repouso absoluto diante do quadro tão evoluído, que ocasionou um derrame no pericárdio. E eu não poderia vacilar; o sacrifício momentâneo era por um bem muito maior.

Durante todo o tratamento, travei uma verdadeira batalha com meu corpo. Não havia alternativa a não ser sobreviver.

A luta era diária. Resolvi sair do centro do meu universo e enfrentar o que viesse. Afinal, havia uma “vidinha” tão esperada e desejada, que dependia exclusivamente de mim. Não podia deixar que nada impedisse o meu objetivo. Se a dor física é inevitável, que qualquer outra dor seja dominada e transformada em vontade. A medicina está a nosso favor; então, temos a obrigação de usufruir disso da melhor maneira possível.

Foram os mais longos nove meses vividos: cirurgia para biópsia; colocação de cateter; biópsia de medula; quimioterapia; injeções para medula; queda de cabelo, cílios, sobrancelha; problemas com o cateter; tomografias; exames de sangue; veias destruídas e enfraquecidas; pet-scan; radioterapia; antibióticos; anti-inflamatórios; drogas multicoloridas, enfim, um verdadeiro bombardeio.

Houve inúmeros momentos em que sentia o mundo correndo a minha volta, os dias escorrendo pelos dedos de todas as pessoas, exceto pelos meus. Meu mundo seguia em outro ritmo. Eu estava na contramão do corre-corre cotidiano. Minha meta era uma só: permanecer viva.

E, no meio dessa trincheira, recebi mensagens e apoio de todos os lugares possíveis; amigos e até desconhecidos queriam me ouvir, queriam dividir a dor e amenizar as sequelas. Injetavam, indiscutivelmente, afago e motivação em meu organismo.

Na última sessão de radioterapia, dia 2 de maio de 2013, tive uma surpresa inesquecível: todas as atendentes do COI – Barra da Tijuca – me aplaudiram. Foi simplesmente emocionante. Impossível conter as lágrimas diante de um gesto tão carinhoso. Todos nós tínhamos o mesmo desejo: queríamos que tudo passasse.

E passou. A vida é assim mesmo. Um caminho repleto de direções, atalhos, obstáculos. Um caminho movimentado, colorido, conturbado e emocionante. Hoje estou indo para o meu segundo ano de remissão. Alcancei o último andar do meu maior desejo: ver a minha “vidinha” crescer, se desenvolver. Poder acompanhá-la bem de perto, assisti-la sem perder de vista, passo a passo, o desenvolvimento de um sonho realizado. Caminhar lado a lado e cuidar do “melhor pedaço de mim”: minha filha.

E, assim, sigo o meu caminho. Viverei e sobrevivei para contar.

Flavia Ruggeri
13/3/2015

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