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Luciana Medeiros

Foto da Luciana Medeiros que contou sua Historia de Superação

No dia 22 de dezembro de 2012, comecei meu blog, Diário do Manto. A intenção era abrir um canal de comunicação com os amigos no período do transplante de medula óssea, que se aproximava. Àquela altura, eu já estava no final da quimioterapia pré-transplante, programada por causa da recidiva de um linfoma em agosto/setembro de 2012. O primeiro post foi, é claro (batizado de Avante), uma recuperação da história que havia começado em 2008. Vale reproduzi-lo na íntegra:

“No finalzinho de dezembro de 2008, percebi que havia um estranho nódulo embaixo do maxilar, do lado esquerdo do pescoço. Grande, nítido, indolor, palpável e, principalmente, esquisito. Eu estava embarcando para a França e, durante toda a viagem, a existência daquela discreta caxumba ficou fazendo eco no fundo da cabeça. Podia não ser nada? Podia. Mas a vozinha lá no fundo me dizia que aquilo tinha um jeito estranho demais. De volta ao Brasil, em janeiro, investigações médicas pilotadas pelo clínico amigo – mais do que amigo, quase irmão – levaram a uma primeira biópsia por aspiração com agulha fina – esse é o nome técnico do procedimento, feito em consultório, para capturar células do local suspeito e mandar para a patologia. Resultados não conclusivos. Numa segunda biópsia, cirúrgica, em março, foram retirados diversos nódulos linfáticos para exame.

O laudo veio uns dez dias depois, batendo no fundo da alma como uma pedra: linfoma não Hodgkins de alto grau. Mesmo antes da imunoistoquímica, que serve para determinar o subtipo da neoplasia do sistema linfático, cheguei à oncologista, que começou a planejar o tratamento quimioterápico.

Ainda viria uma segunda notícia sobre a doença, que abalou de novo o meu mundinho, já em estado de exceção. Meu linfoma era de células do manto, ou simplesmente ‘linfoma do manto’, que tem como principal característica a possibilidade de recidivas erráticas. Apesar de ser agressivo – de alto grau, que se espalha rápido –, não tinha a compensação dessa agressividade pelo lado positivo, que é o da provável aniquilação depois do tratamento. O sujeitinho sem-vergonha tinha os dois lados ruins: era teimoso como os linfomas indolentes e também capaz de disseminar-se como os de alto grau.

De abril a julho, fiz seis sessões do protocolo R-CHOP (depois explico melhor para os neófitos o que é o protocolo e o que significam as letrinhas). Em outubro, um PET Scan – tomografia com contraste radiativo – selou o final do tratamento. Alívio. Mas a prontidão teria de ser eterna, com consultas e exames de três em três meses, por um longo tempo.

E a história recomeçou há três meses. Dessa vez, o processo que já está em curso, de sessões de quimioterapia (novo protocolo, R-ICE), é direcionado ao transplante de medula óssea. Fiz a primeira das três sessões (cada uma dura quatro dias) no fim de outubro, a segunda no fim de novembro e vou para a terceira agora, depois do Natal. Os procedimentos de transplante se iniciam na terceira semana de janeiro.
O TMO (transplante de medula óssea) autólogo (ou seja, das células do próprio paciente) implica, grosseiramente falando, colher células-tronco do sangue, armazená-las, destruir a medula com quimioterapia pesada para depois reintroduzir as células guardadas. Por causa desse momento em que o paciente fica sem defesas, antes da ‘pega’ da nova medula, é necessário um ambiente de estrita proteção – o isolamento hospitalar. Esse dura quase um mês.

E ‘voilà’, chegamos ao ponto: para isso nasceu este blog. Para que eu possa dar notícias a todo o mundo, trocar informações, explicar o processo dentro das minhas possibilidades – espero que direitinho, sem falar muita besteira.

Desde o primeiro momento, lá em 2008, eu tive ao lado a presença constante, madura, firme e ‘hors-concours’ da minha filha – que tinha 18 anos na época. E meu companheirão foi meu irmão. Ão, ão, e ele ainda se chama João. Ele mora longe – em Salvador –, mas eu o tive perto em todos os momentos. E não apenas porque é irmão, mas ainda por ser médico – o que, aliás, fez muita diferença, porque ele conduziu as escolhas dos especialistas, acompanhou todos os processos como colega e me deixou em estado de total segurança. Não é pouca coisa, isso. É decisivo. Para mim, os dois têm sido a primeira órbita de apoio amoroso.

A família imediata e os amigos – os megas, os superpróximos, os muito próximos, os nem tão próximos, mas todos incrivelmente carinhosos – são o segundo e essencial anel de conforto e alegria. Rapaziada, como é importante esta rede, o calor no coração, o cafuné na alma, a reafirmação da disponibilidade, da presença.

Vou estar aqui sempre que puder, sempre que a disposição estiver boa. É uma jornada, e chegaremos ao porto juntos. De preferência, mantendo o bom humor.”

Pois bem: quatro meses depois desse primeiro post, estou totalmente recuperada. Foram três baterias de quimio R-ICE e o transplante em si. Saí do Hospital de Clínicas de Niterói dia 10 de fevereiro, domingo de carnaval, e em pouquíssimo tempo estava de novo me fortalecendo. Tive o apoio absoluto da família e dos amigos queridos, que acompanharam os 74 entradas (até agora) no blog; a equipe de hematologistas chefiada pelo Dr. Ricardo Bigni e a equipe de enfermagem do HCN não deixaram nenhum espaço para dúvidas, tristezas ou amarguras, e muito menos para temores quanto à competência de todos e de cada um. Estive sempre acompanhada, de longe, mas com atenção total, pela queridíssima Monica Schaum, minha oncologista e vice-presidente médica do Americas Oncologia, um arraso de competência e carinho.

Quem se der ao trabalho de ler os posts do blog vai encontrar a descrição de alguns momentos mais difíceis, como a luta contra a náusea que apareceu na quimio pré-transplante (mas que foi 100% domada). Vai encontrar ideias, considerações comentários sobre filmes, livros e séries de TV; e vai chegar ao post de 21 de abril, chamado Alforria: ali eu celebro o laudo zerado do PET Scan, os cabelos voltando a crescer e uma força renovada para o trabalho.

Eu não passaria tão bem por tudo se não fossem essas pessoas queridas. Alguns amigos me carregaram no colo o tempo todo, acompanhando o blog, comentando o Facebook, ligando, mandando torpedos. Expressar tudo isso foi fundamental para meu espírito se manter forte, e o corpo seguir reagindo e vencendo.

Há chances de que o transplante tenha sido a cura. Mas não há garantia total disso. Pensando bem, o que, nesta vida, tem garantia total? Só mesmo o amor de filha, dos tios, do irmão (que me acompanharam de pertíssimo no TMO), o amor dos amigos que soltaram balão na janela do hospital e esconderam bilhetes-surpresa em um livro para me animar. Esse amor eu tive, tenho e espero estar sempre retribuindo. E é essencial para a cura.

Considero-me, sim, curada. Ajo como tal. Sinto-me renovada e fortalecida. É uma nova vida, e bela.

Clique aqui e conheça o meu blog.

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