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Maria Ignez Miranda Fajardo

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Cicatrizes

As marcas internas que carregamos dentro de nós, muitas vezes fruto de rasgos, rombos, cortes, pedaços retirados sem dó nem piedade, vão nos transformando em pessoas melhores, pé no chão; mas algumas não aguentam o tranco e ficam piores.

As cicatrizes externas, aparentes ou cobertas, escondidas, vão nos graduando.
Sempre achei cicatriz um adereço interessante.

Eu tenho várias; pode até dar a impressão de que estas duas de agora estão em primeiro lugar, mas não é real, já que cada uma delas me deu uma medalha de vencedora. Uma grande melhorou muito uma área importante, outras me possibilitaram ir mais longe, outras me colocaram na galeria de Mãe, outras me deram literalmente a vida.

As duas novas, ainda bem visíveis, feias, escuras, cheias de fios, propiciaram-me a oportunidade de conhecer algo novo, sombrio, triste e mortal para tantos, contudo, para mim, é uma porta enorme para conhecer, aprender e crescer nesse universo chamado câncer.

Desde a notícia do diagnóstico, tenho escrito crônicas quase diárias no Facebook (https://www.facebook.com/ignez.fajardo) sobre o câncer, dúvidas, medos, sintomas, e tenho vivenciado cada etapa mergulhando em todos os sentimentos.

A perda do cabelo me proporcionou uma grande viagem, e os efeitos da quimio tento colocar em palavras, mas é muito difícil.

Quimio

Há os dias difíceis – o corpo fica sem controle, vêm diarreia, enjoos, mal-estar, uma sensação de que tudo internamente está passando por uma moenda.

O silêncio, a procura de um lugar para que o corpo se sinta seguro, não deitado, mas recostado, faz-nos vaguear pela casa, como se estivesse num lugar diferente e totalmente estranho.

As dificuldades com a alimentação, as mãos trêmulas, o corpo cansado do nada, vão nos limitando a executar tarefas simples.

Então, é preciso parar, descansar e apenas ouvir a voz do Mestre:
– Não temas, Eu estou contigo, descanse em Mim.

Cinema

Fui levada num dia de carnaval ao cinema. O horário fora do normal (meia-noite) para uma recém-operada.
Reunidas as crianças (os quatro) e mais uma hóspede ilustre, fomos rindo e apostando quem dormiria primeiro naquela poltrona-cama.
O tema do filme era sobre um paciente de Aids, que lutou para receber tratamento com os medicamentos que causavam menos efeitos colaterais.

Luta, perseverança, foco e determinação foram muito importantes para que ele durasse tanto tempo, mesmo passando por várias situações complicadas.
Esse paciente também foi mudando a maneira de pensar e agir em relação aos companheiros de infortúnio.

Uma doença grave nos faz pensar e rodar a cabeça junto com o pescoço, principalmente para os lados. Vemos novas paisagens em tom pastel, mas também muito coloridas.

Mas tem gente que prefere morrer de medo, de vergonha e de pena de si mesma.
Não luta, não sai da cama. Mesmo tomando remédio, prefere esperar e receber de braços abertos a morte.

Já fiz a minha terceira quimio e farei ainda a quarta e depois a radio.
Estou impressionada com o tratamento, o atendimento, o cuidado dispensado pelo Americas Oncologia.
As três horas que desfruto daquele lugar tem me inspirado a escrever muito.
Este tempo que estou vivendo com o câncer tenho aprendido muito, e o mais importante é poder partilhar cada sintoma, cada sentimento e os ganhos desse aprendizado.

Estou na muda

Nasci de cabelo liso e grosso. Com o tempo, ele enroscou.
Usei henê por longos anos (ele era lindo), mas o cheiro do produto me fez desistir.
Passei para o reflexo e depois para a tinta e vivia mudando de cara.
Quando cheguei ao vermelho (e de novo, linda), desisti do trabalho mensal da tinta e da escova.

Assim, descobri que o meu cabelo era pretinho e estava pincelado delicadamente por fios prateados (para inveja das minhas amigas).
Aí surgiu a milagrosa escova progressiva com formol.
Então, fiz a mais triste das descobertas: cabelo liso é muito chato, nada o prende, ele voa à toa. Você dorme e acorda com a mesma cara.

Por isso, estou mudando de novo.
Primeiro, estou passando pela muda radical. Troca total, sem nenhum vestígio do velho cabelo liso.
Dizem que, após a muda, ele vem enroscadinho e que, num passe de mágica, desenrola e volta ao original.
Estou sonhando já com os encaracolados (que estão de novo na moda).
Não tenho dúvidas de que virão mais calmos depois desse tratamento que sossega não só os cabelos, mas também a correria, os pensamentos e principalmente a vida.

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