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Max Jorge

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Janeiro de 2014, domingo, dia 7, hora do almoço. Ao mastigar o alimento, senti uma dor incômoda.

Aí tudo começou. Imediatamente, corri para um dentista, já que havia pedido a minha esposa que olhasse o que havia, e ela se apavorou com a imensa úlcera que ocupava a maior parte do céu da boca. O dentista nada pode fazer a não ser pedir que eu procurasse um especialista. Chegamos ao primeiro cirurgião de cabeça e pescoço, que mandou que eu fizesse uma naringoscopia, visto que sangrava a toda hora, e eu já usava um vidro de descongestionante nasal por dia. Eu acreditava ser uma sinusite.

No exame, não foi possível observar nada, uma vez que a sonda da imagem nem passava. Senti medo, muito medo. Sabia que algo estava errado. A otorrino me encaminhou imediatamente de volta ao cirurgião, que me solicitou uma tomografia. Mas como? Outra? Eu mal havia tido alta de uma seriíssima cirurgia de emergência, resultado de uma úlcera perfurada que me deixara vários dias no CTI, com dieta líquida por três meses, e lá estava eu sendo “revirado” do avesso de novo. Resposta do laudo: tumor de 5 cm, pegando o palato e o maxilar do lado direito, indo agressivamente em direção ao septo, empurrando-o e obrigando-o a se fechar totalmente. Vivi os momentos de terror mais agressivos que poderia viver.

“Abriremos seu rosto ao lado do nariz, vindo de cima dos olhos até o final de seu lábio superior. Seu rosto sofrerá um movimento de abertura da face como abrimos um livro. Tiraremos o tumor de todo o seu palato e do seu maxilar do lado direito. Você terá uma tentativa de recomposição com sua pele do braço, mas poderá haver rejeição, e, caso haja, isso será, então, repetido. Alguns meses traqueostomizado e alguns meses se alimentando por uma sonda, que levará alimento pelo seu nariz. Não poderá falar por no mínimo 10 meses, e comida sólida só depois de 8 meses. Mas não saberemos antes se seu tumor é maligno ou não, somente na cirurgia”, disse o cirurgião.

Esta última frase foi o melhor dos cenários que ouvi. Olhei minha filha, uma linda menina de apenas 10 anos e questionei: Deus me deu esta criança para com tão tenra idade desamparar? Isso não me caiu bem, mas…

Continuei a peregrinar. Certa feita, em uma conversa com uma fraterna amiga instrumentadora cirúrgica, que, ao olhar, imediatamente falou: “Eu conheço um gênio que pode cuidar de você, mas não tenho mais o contato. Mas eu te garanto, amigo, que vou encontrá-lo”.
Continuei minha peregrinação; já estávamos em abril, e eu sofria calado. Isso me doía, mas me doía mais ver minha mulher sofrendo do mesmo jeito. Com o mesmo silêncio e jorrando acalanto para mim. Como senti! Como me vi impotente! Nem mesmo sabia o que tinha. Ao citar o nome desse gênio ao médico que houvera elegido para enfim me operar, outro gênio. Ele se curvou e disse que aquele era seu mestre e que não seria, ou ele não acreditava ser, possível ser eu operado por tão honorável e cara figura. Ele se levantou da mesa e disse: “Max Jorge, me dá um abraço”. Achei estranho, já que sempre que saía das minhas consultas comentava com minha mulher: O André é silencioso. Não sei se isso é bom ou não.

Naquele abraço, percebi que ele sabia que, no fundo, eu tinha uma força. Talvez quisesse se certificar dela. No meu íntimo, eu tinha uma força dentro de mim, eu não sabia que tinha, mas tinha. O grande ‘barato’ é que sentia lampejos dela. Não estava disposto a me entregar. Sabia que não deveria questionar o porquê de estar vivendo aquilo. Considerei, então, perguntar, de forma diferente, e reformulei a pergunta: PARA QUE ESTAVA VIVENDO AQUILO? Todas as “portas se abriram”, e a força, a tal, que eu nem sabia como entender, mostrou-se e gerou enorme capacidade de produzir fé. Uma fé que, em todos os anos anteriores de minha vida, eu sempre negava ter. Uma fé que habitava dentro de mim, mas eu não a conhecia. O câncer é uma patologia do corpo, mas, talvez, a descoberta dessa tal fé macula a alma.

Essa doença também nos faz refletir, uma vez que tira nossa consciência de sua zona de conforto, e, para quem é afeito a uma boa luta ou para quem consegue encontrar motivos para lutar, ela se mostra um adversário que podemos enfrentar de igual para igual. Quando acreditamos em nós, temos fé, conseguimos nos aproximar da energia que governa o mundo, e esse conspira a nosso favor. Naquele momento, estava eu frente a frente com um dos maiores gênios da medicina no assunto, que, com olhar doce e meigo me disse suavemente: “Avise a seu cirurgião que prepare toda a burocracia de hospital, me ligue dizendo a data, que eu quero cuidar de você. Vou operá-lo, se ele permitir; não se preocupe com valores. Não existirão. Quero cuidar de você”.

Após uma crise de choro e de ser encaminhado para outro gênio da prótese no Brasil, este me disse: “Relaxe, amigo, você vai ficar lindão! E vamos depois cantar belas canções, já que eu havia dito a ele o quanto amava a música; tocar e cantar era uma fonte de vitalidade para mim, e, por acaso, para ele também. Eu ainda tinha na memória a imagem do elemento desfigurado e terminal que eu ficaria, mas nem mesmo sabia o que tinha. Foi quando gritei, pra dentro do meu peito, que aquilo tudo não era por acaso. Aí chegou o quarto ingrediente para fazer esse delicioso bolo de emoções boas: o bom humor, pois amor de família, coragem e fé eu já havia descoberto.

Fui operado num dia de julho. Ao subir para o centro cirúrgico, pedi ao anestesista que não me deixasse morrer. Acordei passando a mão no rosto e não percebendo cortes, não percebendo traqueostomia e não percebendo sonda nenhuma. Sentia algo diferente em minha boca, mas tremia de medo de saber o que era. Foram momentos de extrema angústia, quando ouvi a voz do anestesista: “Acorda, cinderela! Diga pra nós que você está ótimo. E fale comigo”. E eu, ainda na sala de cirurgia, falei as primeiras palavras. Veio-me uma alegria tão grande, que me senti nascendo outra vez. Meu tumor fora todo retirado, com margem de segurança, etc. Enviado ao laboratório, retornou com o que eu temia – Carcinoma Adenoide Cístico.

Ora, pensei, mas por que temer o que não tenho mais? Fui indicado para o tratamento radioterápico e lá encontrei um jovem médico, que me sorriu e me disse que o pior eu já havia vivido. Foi quando propus o acordo mais fantástico de toda a minha vida. Dirigi-me a ele e disse: Higor, vamos fechar um acordo. Você fica com meu câncer, e eu fico com a minha vida. Cada um cuida de uma coisa. Ele sorriu, apertou minha mão e me disse: “Combinadíssimo”.

Trinta sessões. Tudo estourou no sexto dia. Tudo infeccionou no oitavo dia. Tudo doeu no nono dia. Aí surgiu um anjo, que, com seus cabelos claros, sempre sorrindo, enviava sua luz azulada, e, como num passe de mágica, curava minhas feridas. Eu não perdi o bom humor. Havia em mim uma vontade de sentir orgulho. Era o momento que eu tinha para não depender de ninguém, se não de mim mesmo. E sentia uma vontade enorme de retribuir a todos os gênios que se dedicaram a me curar, sem olhar valores, apenas sendo humanos. Eu queria chegar ao topo; essa era a única forma de agradecer-lhes.

Lutei, chorei, gritei sozinho para apenas meus ouvidos. Vi meus joelhos ameaçarem dobrar inúmeras vezes. Vi a derrota me rondar a todo momento, mas queria vencer. Precisava lutar. Comecei a ver amigos, companheiros de trabalho e meus filhos expressarem admiração pela minha luta. Via meu médico, a cada consulta, me dizer: “Muito bom, Max. Você se supera a cada dia”. E percebia certo ar de alegria em seu rosto. Aí eu pensava: não posso mais! Não sou mais sozinho. De verdade, nunca fui. Tenho pessoas que me elegeram ser uma referência. Não posso me curvar a essa doença. Olhava para o luar, quando todos estavam dormindo, sentado, só, na soleira da porta, e pedia: Não me deixe desistir.

Preciso seguir em frente! Dela, a Lua, brotava uma força que me tomava, e eu completava minha missão todos os dias.
Descobri, então, o quinto elemento. E dele me deliciei, lambuzei minhas emoções em busca da vida. Queria minha vida de volta. Era novembro. Não podia deixar um vazio de um ano em minha estrada. E esse elemento veio para me adoçar a alma. Era a poesia. Percebi que não há luta sem coragem. Não há vitória sem fé, mas não há vida sem poesia. Assim, notei:

“Que a fé que sentimos vem de dentro, do profundo do soterrado…
Mas o que soterramos em nós se não alguns amores de infância e alguns desejos encerrados?
Somos a força de batalhões,
Somos o grito dos trovões!
Mas somos só crianças, brincando no jardim da vida! Efêmera! Sem controle!
Apenas a vida!
Mas qual o valor maior da existência senão a vida?
Ah desgraçados sejamos todos nós se nela não colocarmos poesia!
Ver sobre a ótica do derrotado é tão torpe! Tão sem graça! Sem… Poesia!
Ora, o que é um corpo doente, ainda que terminal ele se apresente,
Se a maior doença humana está na alma?
Gritemos ao além! Juntemos esquadrões! Gritemos com chapéus de jornal e cavalos de pau! Atacar!!
Como crianças perdidas em sua pura imaginação vamos lutar!
“Navegar é preciso…”
Ser quem sabe um Dom Quixote que luta contra os moinhos do desconhecido!
Que por amor de sua doce encantadora vida, imagina ser o seu quintal o mais belo e bravo campo de batalha!
Que nada!
Somos todos insanos! Somos todos senhores de nossas batalhas!
Temos fé ou esperança?
De que importa tal barata filosofia? Se no fundo somos o que queremos ser!
De que lado você está?
Da criança criativa e do General que sonha ser herói?
Ou de quem vê a vida dentro do horizonte de uma garrafa?
Enchemos então nosso peito de tédio!
Choremos copiosamente por um corpo sobre a mesa! Mas como! Esse corpo é o meu!
Deixemo-nos deleitar com o horror da penumbra fria oferecida pela depressão!
Vivemos indiscutivelmente um filme que inevitavelmente morremos no final!
Ora, então vamos postergar o epílogo!
Vamos beber novas alianças!
Vamos ancorar boas novas!
Não iremos conseguir resultados! Temos que mudar as atitudes!
Tomemos então um porre de uma bebida barata! Em copos de vidro quebrado e sujo para depois cairmos bêbados e sujos, só para nos escondermos de nós mesmos! Acho que assim conseguiremos exaltar a nossa dantesca realidade!
Não, não! Vida!
Talvez não verei vitória em todas as batalhas!
Talvez nem dê tempo de senti-las!
Não sei quanto a você…
Mas eu…
Eu quero é vida!”

Max Jorge Cunha de Oliveira

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