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Rita Aguiar

HDS Rita Aguiar

Quando descobri a doença, aos 54 anos, a “ficha não caiu” rapidamente. Eu via, na cara das pessoas, um pesar, uma pena de mim, e aquilo me causava um tremendo mal-estar. Eu comecei a me perguntar – por que eu? Depois – por que não eu? Do “por que eu” até o “por que não eu”, foi o espaço da hora de uma consulta no hospital Mário Kröeff, onde vi tanta mulher mais nova, mais velha, problemas tão mais sérios. Bom, sou extremamente racional.

Fiz uma reflexão: “Temos um problema, vamos à solução. Deus não me daria alguma coisa que eu não pudesse carregar”. Sou de equacionar as coisas. Então, quando meu médico decidiu pela mastectomia radical, sem reconstrução imediata, pensei: “Se vou ter que operar, vamos comprar logo um sutiã e uma prótese, uma peruca, porque talvez eu tenha que fazer quimio; e, deixando pra depois, eu não sei como vai ser”. Mas eu não me lembro, pela minha forma de encarar as coisas, de ter chorado em momento algum (meu marido, ao passar a máquina zero no meu cabelo, chorava de me incomodar), o que não significa que não fiquei em choque no início.

Mas eu pensava: “Gente, não pode ser o fim da linha, por que eu não me sinto como essas pessoas, por que não estou deprimida, será que sou tão fria a esse ponto? Eu não sei responder. Bom, então operei, e, ao ingressar no hospital, ainda tinha uma mínima esperança de não ter que retirar a mama inteira. Isso não se concretizou, mas minha recuperação foi muito boa.

No dia seguinte de manhã, tive alta (meus agradecimentos ao Dr. João Cupello e a sua esposa, que me operaram). No dia posterior à minha alta, eu tinha uma festa de aniversário para ir. Fui. E as pessoas me olhavam como seu eu fosse um “ET”. Eu preferia ignorar. Eu pensava: “Eu tirei um seio, um câncer que nasceu para fora, eu estou bem, não me olhem desse jeito”. Motivo pelo qual, na época, contei para o mínimo de pessoas; só os mais chegados sabiam, porque eles te olham com piedade, e isso faz muito mal para quem já está mutilada, na expectativa de ficar careca.

Bem, mas cabelo cresce de novo, e, melhor: no peito, a gente coloca prótese, e, se não colocar, pensa: “Eu não sou um peito; eu sou um conjunto de virtudes e defeitos; eu sou uma pessoa divertida, espetacular, amiga, generosa, etc. Minha autoestima é altíssima”, e minha história de superação é esta.

Eu não me senti coitada em momento nenhum. Me senti abençoada porque eu tinha médicos maravilhosos, um atendimento espetacular no COI (Dr. Mauro Zukim – sua secretária Viviane, todo o pessoal de atendimento, e todas as meninas do andar da quimio.

Como já falei, gosto de esquematizar: feita a cirurgia, iniciei, após um mês e meio, se bem me lembro, uma quimio de seis vermelhas, de 21 em 21 dias. Anotei no calendário e jurei que nada iria atrasar o final do tratamento, previsto para agosto. Eu só assistia a filmes de comédia, porque rir é o melhor remédio. Assim aconteceu.

Agora me lembrei de um episódio engraçado: num fim de semana, próximo de fazer a 5ª sessão, tive uma queda de imunidade e liguei para o plantão do COI, tendo sido muito bem atendida. Dali a meia hora, meu médico, Dr. Mauro, me liga e diz para eu ir imediatamente para o hospital tal… Acho que era o São Camilo. Falei pra ele: “Nem pensar; amanhã é Dia dos Pais, e eu vou fazer um churrasco, estou em Maricá, a médica já me receitou, já comprei os remédios, já até tomei”. Ele continuava quase que implorando para eu ir. Eu não aceitei de jeito nenhum, e meus argumentos eram os mais ridículos possíveis, do tipo: “Minha casa tá cheia; amanhã é Dia dos Pais; você não consegue entender isso?”.

Ele acabou desistindo e pediu que eu fizesse um exame de sangue, logo que chegasse ao Rio. Assim eu fiz. Fui fazer a 5ª sessão de quimio, e um médico quis me examinar para saber se eu podia (mentalmente eu rezava para que nada atrasasse, porque meu calendário já estava marcado). Fiz. Deu tudo certo. Tomei Femara por cinco anos.

Em 2012, decorridos cinco anos, parei. Hoje, faço acompanhamento anual com O Dr. Mauro Zukim. Não procuro pensar no futuro, vivo um dia de cada vez, agradecendo a Deus por cada um deles. Aprendi que a doença me fez repensar minha vida, minhas prioridades, o que me fazia bem e o que não me acrescentava nada. Que a vida foi feita para ser vivida, com alegria, gratidão, porque, da mesma forma que a água do planeta, ela não é eterna.

Espero ter contribuído de alguma maneira, para que as pessoas não se deprimam. Hoje é o Dia Internacional da Mulher (8 de março). Então, parabéns para nós todas! Que lutamos, vencemos, não desistimos.

Enfim, beijo em todas.

Rita Aguiar

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